Lançamento do Livro: “Memórias de letramentos: vozes do campo”

Este é um livro sobre aprendizagens. Como todo trabalho sobre esse tópico, ele é educativo e, antes de tudo, emocionante. Podemos aprender muito a partir dessa leitura permeada de várias vozes do campo, que nos trazem práticas de alfabetização e letramentos nem sempre previstas pelo olhar acadêmico, mas que contribuíram e contribuem significativamente para o processo formativo do nosso povo.

Podemos aprender sobre a importância das lutas na busca pelo conhecimento, o que envolve situações desafiadoras como: correr para fugir da chuva de uma escolha destelhada e se abrigar na igreja mais próxima, caminhar por horas para chegar à escola, enfrentar falta de merenda, estudar à luz de lamparina, acordar extremamente cedo ou, ainda, passar o dia todo entre o ônibus e a escola. Podemos perceber o quanto se pode aprender com práticas cotidianas e lúdicas, feito a famosa brincadeira de ‘escolinha’, pela qual muitos passaram, bem como os causos dos mais velhos à beira do fogão de lenha. Essas experiências são trazidas por estudantes do curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

Há, nos relatos, a menção a livros que fazem parte dessas histórias como O diário de Anne Frank, A história sem fim, Poliana, O Fantasma do Tarrafal, O Barquinho Amarelo, O Navio Negreiro, A Bonequinha Preta, A Vida Secreta de Jonas, O Menino Maluquinho, A festa no céu, A Marca de uma Lágrima, Linéia num jardim de Monet, Minha Vida de Menina, Iracema, Lucíola, Senhora, a Bíblia, dentre vários outros, muitos conhecidos do grande público, mas a maioria sem citação dos autores. Há relatos de leituras de autores clássicos de literatura
brasileiros, como Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis, José de Alencar, Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade; de clássicos gregos, como Homero; o francês Charles Baudelaire; o estadunidense Edgar Allan Poe e best sellers como os de Sidney Sheldon. Uma das poucas autoras citadas é Raquel de Queiroz. Há espaço para os cartuns de Ziraldo e para os animes. Notamos, assim, que os personagens também são muitos e diversificados. Há os brasileiríssimos Jeca Tatu e Mônica, o estadunidense Bambi, o japonês Pokémon e outros já consagrados no imaginário ocidental, como Chapeuzinho Vermelho, os Três Porquinhos e João e Maria. Há também os personagens de causos ontados pelo pai, como um certo hortaleiro e um príncipe, e os dos livros doados por tios e irmãos.

As professoras aparecem com frequência, e muitas delas são carinhosamente chamadas de tia. Conheceremos os esforços das alfabetizadoras Cida, Raquel, Salete, Rosária, Maria do Rosário, Dilvânia, Shirly, Nardete, Mariza, Amarailda, Idalina, Dona Martinha e Dona Sirlene, dentre outras. Saberemos de uma professora que comprava livros para suprir a escassez da escola. Curiosamente – ou nem tanto, quando se conhece a realidade das salas de aula – há 8
poucas referências a professores homens, como os citados Paulo Natalício, o Valdir e o Tutu. Os bons resultados desses professores, no contexto de pouca formação acadêmica, são uma vitória incontestável de quem toma para si a luta pela educação.

Nessa luta, o papel dos familiares e da comunidade também se mostra fundamental na apresentação de novos textos e na motivação dos pequenos. É o caso do Tio Bené, da Tia Maria, do vô Levindo e de irmãos mais velhos que ora ajudavam na decoreba, ora acompanhavam a irmã no castigo ou no enfrentamento da professora. É o caso do Sebastião, o vizinho que lia histórias para as crianças, e da vizinha Estela, que habitualmente emprestava
papel e lápis de cor.

As práticas de escrita acontecem formal e informalmente. Há relatos de rabiscos de carvão nas paredes que eram o único suporte para as primeiras práticas com a escrita de uma criança; de diários e poemas produzidos por iniciativa própria; do Jornal Mural que foi definitivo na motivação para a leitura de uma estudante; do mural com os nomes dos melhores leitores da escola acompanhados de uma estrelinha; da curiosidade diante de textos religiosos presentes na vida familiar; da inusitada técnica de cópia de desenhos que usava querosene no papel; e até a aprendizagem autônoma de uma criança de cinco anos que assistia às aulas
da mãe sem nenhum compromisso, mas um dia leu a palavra ó-le-o na lata do produto. As escolas, por sua vez, eram sobretudo públicas, como as municipais e as estaduais, ou de associações, como algumas creches e as Escolas Família Agrícola (EFA).

Temos certeza que essa experiência de leitura será muito rica para todos aqueles que se interessem pelo diálogo sobre a educação. Boa leitura!

Carlos Henrique Silva de Castro e Luiz Henrique Magnani
Licenciatura em Educação do Campo – Linguagens e Códigos
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM
Diamantina – MG, novembro de 2017
Autores: Carlos Henrique Silva de Castro

Baixe o LIVRO COMPLETO aqui.

59 thoughts on “Lançamento do Livro: “Memórias de letramentos: vozes do campo”

  1. Parabéns, professor Carlos.
    Gostei muito de fazer parte deste trabalho, é emocionante voltar ao passado, realmente o que somos hoje é reflexo das pelejas que passamos.
    Vendo o material final, fiquei pensando na trajetória deste, e como esta ação influenciou estudantes que ao regressarem as suas comunidades a fazer registros semelhantes, a confeccionar livros, e até criar paginas na internet.
    Pensas em escrever um artigo sobre esta construção deste livro? Se sim, tô dentro (rsrrsrsr)
    Abraço…

    • Mauricio, esse material é tão rico de experiências que pode gerar muitas e muitas reflexões em gêneros textuais diversos como artigos ou até outros livros. Como é um material livre, como licença creative commons 4.0, qualquer um pode fazer isso desde que cite a fonte e que não seja para fins comerciais. Seu projeto de mestrado, por exemplo, pode sair dele. Já pensou nisso?

      😉

  2. Que Satisfatorio obter conhecimentos diante desse magnifico texto: De fato sao relatos verdadeiros e importantissimos, que de alguma forma me vejo inclusa.
    Sou Estudante do curso LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO DO CAMPO ( ufvjm) assim: com letras maiusculas pois me orgulho e me vejo na obrigação de lutar por uma educação melhor, juntamente com todos meus colegas e professores que a cada dia nos incentiva a prosseguir com nossos ideias.
    Dessa forma Parabéns Carlos Henrique Silva de Castro e Luiz Henrique Magnan, pela ilustre apresentação!!!
    ” Os vales que educam, Educação do Campo”

  3. Estou muito feliz e bem representada com a divulgação deste livro produzido por diversos autores que no qual apresentam suas vidas e como os letramentos estavam presentes de forma tão emocionante e que nos faz refletir em nossas vidas. Como é relatado nos textos, os letramentos em sua maioria se dão principalmente através do convívio cultural, familiar, tradicionais. Se faz necessário que as escolas e toda gestão nelas inseridas, façam esta devida reflexão através deste livro magnífico, que mostra quanta riqueza de saber se tem nos meios culturais e o quanto tem a importância da escrita em nossas vidas. O acesso aos letramentos nos permitem sim uma vida com maior acesso a diferentes ocasiões, mas não devemos esquecer dos letramentos que nós mesmos vivenciamos na infância e que devem ser valorizadas sempre. A mesma é uma rica fonte de aprendizagem nas escolas.
    Grata por está participando em um capítulo deste livro!

  4. Grade honra poder contar em poucas palavras os nossos letramentos da infância. Saber que este trabalho poderá servir de exemplo para outras pessoas, para que elas também possam escrever suas histórias de letramentos, este livro mostra realidades de pessoas diferentes, mas com uma mesma força de vontade em obter conhecimento em letrar-se cada dia mais. Parabéns á todos, que a persistência e foco esteja sempre em primeiro lugar.

  5. Parabéns pelo trabalho, muito enriquecedor!!!
    É um prazer poder contar um pouco de nossas infância. Saber que as nossas memorias tem utilidades e serventia para muitos jovens (a) de estar contando um pouco de sua história de vida também. Venho parabenizar a todos que contribuíram para este grande trabalho.
    Abraços a todos!

  6. Participar da construção de um material rico como este é muito gratificante. A construção do livro além de nos promover inúmeros aprendizados, nos ajuda a intender melhor as mais variadas formas de letramento que constituem a formação de um indivíduo, sejam elas formal ou informal e o quanto isso pode influenciar na sua constituição identitária.
    Parabéns a todos!

  7. Parabéns pelo lindo trabalho. Fico muito feliz de participar , de voltar ao meu passado muito emicionante e ao mesmo tempo um pouco doloroso más valeu a pena de contar como foi o meu letramento e de conhcer as dos meu colegas. 👏👏👏👏👏👏

    • Ei, Karine! Os textos de nossos estudantes, que compõem esse livro, foram trabalhados com nossa orientação por todo o processo, mas mesmo assim algumas inadequações ao gênero acabam passando. Ficamos contentes em saber que o trabalho agradou. 🙂

  8. Emocionante! É muito bacana ver essa valorização das memórias, das trajetórias e dos personagens que marcaram a vida dos estudantes. Parabéns aos educadores pela sensibilidade e compromisso, parabéns aos autores maravilhosos, que partilharam um pouco da história deles!
    Tem personagem aí, que até hoje está fazendo a diferença em nossa comunidade hehhehe…Contando um monte de causos pra nos inspirar! Abraços!

  9. Me sinto honrada e contemplada por conter nesse livro a memória de todo o processo de aprendizagem construído desde que me conheço por gente, esse livro é reconhemento do que foi vivenciado por pessoas que lutaram para estudar e desfrutaram não só de livros e daquilo que se aprende na escol,a mas de prosas e causos contados por pessoas importantes em suas vidas como a família, esse livro é inspirado na realidade e permite recordar e conhecer memórias construídas por pessoas que sempre viveram no campo e lutam por uma educação do campo de qualidade. No mais só tenho a agradecer e parabenizar ao Carlos Henrique e ao Luiz Henrique que proponaram a produção desse livro que não só representa a nós estudantes da LEC, Licenciatura em Educação do Campo mas a todos que já brincaram de escolinha, que já tiveram altos papos e conversas com seus avós, que já lutaram para estudar etc. Aos colegas e educadores meu muito obrigada!

  10. O sentimento que em mim perpassa é gratidão, pois este livro é a oportunidade de dar voz ao sentimento de muitas pessoas no processo de alfabetização e letramento. De certa forma este livro é incansável para mim enquanto futura educadora refletir sobre a importância de um professor na vida de um aluno e sobre tantas outras coisas, como as dificuldades que a pessoas do campo se deparam cotidianamente para serem alfabetizadas como o acesso até a escola, meio de transporte, preconceito, fome e falta de oportunidade. Parabéns professores pelo trabalho e por essa ideia tão linda.

  11. Pingback: Memórias sobre letramento no campo é tema de livro lançado no UEaDSL 2017/2 – CAED – Centro de Apoio à Educação a Distância

    • Oi, Hernane! Vou apresentar um artigo semana que vem na UFPE falando sobre esse processo, os pressupostos teóricos, as metodologias, etc. Especificamente sobre o tempo gasto, foram produzidos 68 textos em 2 semestres. O trabalho envolveu orientação, leitura e revisão de colegas, revisão e edição dos professores, formatação, além das questões burocráticas na editora.

  12. Parabéns, aos organizadores pela metodologia brilhante em executar o projeto desse livro.
    O Livro: “Memórias de letramentos: vozes do campo” contem conteúdos riquíssimos em forma de relatos. GRATIDÃO, por ter contribuído nesse projeto.

  13. primeiramente, desculpe me a expressão, mas não há outra para isso: “UAU”. Já fazia um bom tempinho que não esbarrava em uma ideia legal, divertida, inclusiva e dinâmica quando o assunto é letramento! Como é bom ver a forma singela de repassar o conhecimento no mundo tão egoico como o da educação, e o não esquecimento das pessoas de campo! Parabéns Dr. Carlos Henrique, espero brevemente conseguir ler todo o livro e trabalhar com este.

  14. Parabenizo à equipe por trabalho tão sensível. As primeiras memórias da escola nos marcam e merecem ser contadas, escritas, lidas, relidas. Em tempos em que Paulo Freire tem sido criticado por grupos que pouco ou nada conhecem sobre o ato de ler, não podemos esquecer que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Esse livro nos mostra essa leitura de mundo(s) e da palavra misturadas bem perto e, ao mesmo tempo, além do pé da mangueira do grande mestre.

  15. Parabéns por trabalho tão sensível. As memórias da escola merecem ser contadas, escritas, lidas, relidas. Em tempos em que Paulo Freire tem sido criticado por grupos que pouco ou nada entendem sobre a escola, importante deixar marcado que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Esse livro nos apresenta leituras de mundos e de palavras que nos remetem para perto e além do pé de manga do mestre.

  16. Parabéns, pelo trabalho. Muito bom. As práticas de escrita acontecem formal e informalmente. Há relatos de rabiscos de carvão nas paredes que eram o único suporte para as primeiras práticas com a escrita de uma criança. As memórias da escola merecem ser contadas e sabe-se que existem tantas experiências boas.

  17. Fiz parte da realização deste trabalho e posso dizer que foi algo prazeroso. Poder refletir no meu processo de letramento, fazendo retomadas de cada aspecto foi reviver momentos importantíssimos que, talvez, eu nem lembraria de outra forma. Obrigada, professor Carlos Henrique, por nos proporcionar momentos assim e nos auxiliar de forma tão dedicada na construção destes trabalhos!

  18. A divulgação desse trabalho é mais uma forma de motivação, e logo nos leva a fazer uma breve retrospectiva de vida onde passamos a apreciar e valorizar as nossas vivências.Estou muito contente com esse trabalho.

  19. Agradecemos a todos a participação nesse debate de lançamento do livro das memórias de letramentos dos nosso estudantes. Se quiserem continuar o diálogo, nos procurem no Facebook pelos nomes completos ou procurem a página Educampo dos Vales. Aos que compartilharem nosso livro, agradecemos em dobro. 🙂

  20. Foi realmente muito rico ter participado desse projeto, tenho só a agradecer por nos proporcionar ver histórias tão emocionantes e distintas tomar forma de um belo espetáculo em forma de livro! Parabéns!

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