sobre a oficina online – discussão livre

Este post nasceu de uma discussão bem saudável no post do Arthur e do Caio: http://www.textolivre.pro.br/blog/?p=346 e achei interessante trazer a todos, alunos e comunidade. Existe muita resistência quanto ao ensino online, e não só entre alunos: a sociedade como um todo pensa no ensino a distância como necessariamente pior que o presencial. Inclusão digital e formação do cidadão fariam toda a diferença, mas já que isso não vem fácil, temos duas alternativas: repetir o presencial pra fazer de conta que o online tem qualidade ou explorar o online e correr o risco. Optei pela segunda opção, como bem sabem todos. Ficarei contente de poder debater o assunto aqui, numa mesa pública, com toda a comunidade do evento. Obrigada.

Oi, Arthur,
fiquei feliz com sua resposta, quase maior que o artigo, é isso mesmo. Quando falei em brincar, me referia a causar polêmica, desculpa se os ofendi, não foi a intenção.

Temos alguns pontos para pensar sobre a disciplina e faço questão de colocar todos aqui, em aberto, porque a equipe de professoras e monitoras que eu coordeno trabalha com muita seriedade, profissionalismo e dedicação, merece essa resposta:

1) porque numa disciplina de leitura as pessoas não lêem tudo que está disponível? Mais da metade dos problemas que aparecem nos fóruns devem-se a falta de conhecimento de informações disponíveis no moodle, algumas desde o início. A maioria de nós não está acostumada a ler, a maioria tem arrepios se precisar consultar um manual e prefere que seja todo desenhadinho, pra facilitar. Esse é um dos pontos críticos para quem faz uma disciplina online, é ultra importante superar essa dificuldade, ainda mais numa disciplina que tem leitura como um dos objetivos. Mas, por outro lado, eu vejo essa dificuldade como um trunfo do online sobre o presencial, afinal neste último a atividade de leitura vai ficar necessariamente restrita a textos escolhidos pelo professor, o que os colegas, monitores, tutores disserem será ouvido. Infelizmente muitos sequer chegarão ao final deste artigo-resposta (sim, isso é uma provocação!);

2) tivemos muitos problemas com datas, sim. Minha culpa: eu não devia ser tão exagerada em repetir as datas a toda hora no site, acabei esquecendo de mudar num ou outro lugar quando foi necessário alterar e foi uma confusão, mas de jeito nenhum foi desorganização. Desculpem, da próxima eu vou confiar que os alunos vejam as datas das tarefas na própria lista de tarefas. É arriscado para os alunos menos ligados, mas não corro o risco de repetir esse erro. Vejam, são escolhas que temos que fazer. Eu jurei pra mim e pra equipe que nenhuma data seria alterada durante o semestre… daí tivemos semana do conhecimento, alunos com dificuldades e pronto… voltei atrás. Devia ou não? gostaria de saber o que vocês pensam.

3) A metodologia que usamos tira o foco da escrita. Então dizer que parece uma “Oficina de Software Livre e Pequenas Dicas de Português” é, aliás, uma ótima forma de ver que estamos conseguindo o objetivo de tirar o foco da teoria. Mas eu entendo bem a sensação de vocês. Estamos acostumados a disciplinas em que o professor, dono da verdade, derrama conteúdo e depois cobra a absorção. Eu não trabalho assim, nem em aulas presenciais. O que fazemos tem um nome na pedagogia, chama-se “comunidade de prática”, formamos uma comunidade que está escrevendo e lendo o tempo todo, em diferentes gêneros, aprendendo pela leitura e aprendendo pela interação;

4) As ferramentas de apoio, infelizmente não estão todas prontas, aliás poucas estão. Passamos o semestre trabalhando em slides de gramática que ainda não estão como queremos e, pra melhorar, perdemos o servidor onde os programas online já criados (por nós) para estudo de crase, pontuação e análise de conteúdo formal, de modo que não foi possível utilizar isso tudo que ajudaria muito. Quem sabe vocês não ajudam? Colaboradores são sempre bem vindos, tudo que fazemos é GPL ou Creative Commons e todos os softwares estão registrados no sourceforge, com svn, podendo oficializar assim os desenvolvedores. Se alguém, de qualquer área, mas prinicpalmente programadores ou estudantes da letras,  se interessar, me procure;

5) sobre o tema: software livre. Hoje em dia é muito difícil mobilizar as pessoas. Quase ninguém quer saber como as coisas são feitas, quem detém poder sobre elas e, sem esse conhecimento, somos reféns de quem está no comando e incapazes de criar novos espaços. Como professora, vejo que minha primeira função não é o conteúdo das várias disciplinas que já ministrei e ainda vou ministrar, é, principalmente, ajudar a formar cidadãos conscientes, proativos, capazes de escolher seu próprio caminho. Ok, daí venho “obrigar” todo mundo a falar de software livre, que professora chata! Pode ser, aceito a crítica, mas em momento algum eu disse que ninguém poderia ser contra o software livre na minha disciplina. Não estou avaliando quanto vocês aprendem de software livre ou se vocês entram na minha onda, a polêmica é justamente a melhor arma que tenho para empregar a metodologia do risco. Então porque não falar de um assunto que não só gera polêmica como também mostra a muitos estudantes opções no uso do computador que jamais sonhariam? Isso vale em praticamente todas as carreiras, se não for em todas. Mas com certeza é outra ponta de faca em que eu dou murro (será que a professora é masoquista? rs, não diria, acho que sou mesmo idealista…);

6) Muitos de vocês escreveram artigos sem referências. Ou então colocam as referências no final mas, durante o artigo, não mostram onde elas contribuíram, deixando parecer que tudo saiu de sua mente brilhante, esquecendo que conhecimento não evolui sem acesso ao que já foi conquistado e discutido. Outro ponto onde a cultura livre é fundamental: devo dar valor ao que já foi dito (nem que seja pra me opor), devo valorizar quem falou, afinal tanbém quero ser valorizada ou contradita, então meritocracia e compartilhamento de conhecimento devem fazer parte do mundo acadêmico. Todos sabem que plágio é ilícito, já vi uma tese de doutorado, defendida e aprovada, ser revogada por uma acusação de plágio que foi provada verdadeira. Eu seria no mínimo irresponsável se, ao pedir um artigo para vocês, não cobrasse referências bem usadas. Elas podem fortalecer seus argumentos mesmo quando você se opõe a elas;

7) nota pra tudo: pra que isso? simples: a) todos os exercícios são feitos com o objetivo de acrescentar algum conhecimento para quem o fizer, então passar com nota alta deveria ser comum a todos interessados em aprender e b) não acredito que uma ou duas avaliações no semestre permitam perceber os avanços dos alunos e são estes avanços que devem ser medidos.

Por enquanto é isso.

bjs

acris

5 thoughts on “sobre a oficina online – discussão livre

  1. Acris,

    Fico extremamente feliz que o meu artigo e a nossa discussão tenha tomado um rumo saudável e respeitoso através deste seu post. Mais feliz ainda em ambos terem levado a discussão à todos os alunos. Em primeiro lugar faço-lhe a sugestão de colocar o link deste post na capa da comunidade. Creio que muitos alunos estão esperando uma resposta e esclarecimento vindos de você em particular.
    A resistência do ensino online: concordo com todo texto, de fato existe uma resistência. Entretanto já realizei outra disciplina online e curso outra além de “Oficina de Língua Portuguesa”, onde tudo correu e corre bem, de maneira organizada, sem maiores desentendimentos, Inglês Instrumental I e II, ambas oferecidas pelo seu Departamento.
    De fato quanto li seu post, pensei que você havia levado as coisas para o pessoal, como se a própria ideia do meu artigo tivesse te ofendido em primeiro lugar. Desculpas aceitas e como mencionei anteriormente, fico contente que por fim tenhamos nos entendido e que a conversa siga de maneira mais amigável.
    1) A maioria das pessoas leu sim tudo que estava disponível. O problema se encontrava nas contradições, em alguns lugares se dizia uma coisa, em outros outra, e as monitoras por fim acrescentavam novos detalhes. Não quero culpa-las, mesmo porque sei que se esforçaram enormemente para nos ajudar e em nenhum momento agiram com a intenção de nos prejudicar. Quando não lemos tudo que estava disponível foi porque não conseguimos chegar à informação. Por exemplo, para quê um fórum Mural de Avisos e outro de Discussão Assíncrona, sendo que ambos acabaram servindo para a mesma coisa? As datas das tarefas, por exemplo, às vezes se espalhavam por três lugares diferentes: no resumo da tarefa na página principal, na descrição da tarefa na página da tarefa, e no link das tarefas em aberto em uma coluna especial. Por que não juntar tudo isso em um só lugar com o intuito de proporcionar maior clareza? Não se trata de desenhar e sim de oferecer instruções e interfaces claras.
    2) Quanto às datas concordo em todos os pontos. Somente acrescento uma sugestão: muitas das datas limites coincidiram com feriados às segundas-feiras, eu mesmo creio ter perdido duas ou três entregas. Sei que elas estavam lá há muito tempo e que o ideal é me programar e adiantar assim que possível, mas como é comum a muitos alunos, estamos sempre muito ocupados e acabamos por fazer as coisas perto das datas limites. Novamente, somente uma sugestão, evitar datas limites em feriados.
    3) Respeito sua opinião. Mas já que a intenção é proporcionar uma experiência nova, alguns pontos devem ser levados em consideração: a grande maioria de nós não sabia disso, portanto acredito ser prudente disponibilizar essa característica de antemão; faça como a disciplina Inglês Instrumental, cada área de conhecimento tem sua temática dedicada, não há porque forçar o mesmo tema para um aluno de medicina e para outro de engenharia;
    4) Já que o site e os recursos em si não estão todos prontos porque não esperar por estas ferramentas? Por que não realizar esse experimento com uma turma menor e que esteja ciente disso desde o início? Eu particularmente acho o Moodle em si uma ferramenta bastante inadequada e limitada para o ensino online (são minhas impressões como usuário). Novamente deixo a sugestão de consultar os responsáveis pela disciplina Inglês Instrumental, em particular a II. Eles conseguiram proporcionar uma experiência realmente agradável e suave.
    5) A questão do tema já é mais delicada. Como disse, talvez não seja do interesse de um aluno de medicina praticar a escrita e leitura do português através de temas que ele pouco ou nada domina, que não são do seu interesse e que não irá contribuir diretamente para sua formação dentro da academia. Como você mesma sinalizou, em todas as carreiras é possível encontrar temas que geram polêmica e que instigam a capacidade investigativa, então porque, novamente, não separar a temática da disciplina em áreas de conhecimento? Quanto ao Software Livre em si e sua “polemização”, acredito que sua intenção foi válida, mas que não foram oferecidas todas as condições para todos os alunos polemizarem o tema. Imagine você, aluna de medicina, que procurou treinar sua escrita e leitura, se deparando com um tema que nunca viu, através de fontes e textos que somente deferem seu uso. Ora, além de absorver todas essas informações, será que você terá capacidade de desenvolver uma crítica elaborada? Creio que não. Por isso volto a sugerir que seja assumida a imparcialidade, ou no mínimo que sejam apresentados suas desvantagens, problemas e o “outro lado da moeda de fato”.
    6) Quanto ao nosso artigo, acredite ou não ele “meio que saiu de nossas mentes brilhantes”. Basta fazer uma simples busca sobre aqueles que se opõem ao Software Livre no Google, quase nada será achado. Os maiores colaboradores do Software Proprietário são aqueles que os compram, usam e não estão se importando se o código está aberto, se promoveu o desenvolvimento intelectual de certo grupo e etc. Esses colaboradores (compradores) se importam em ter aquilo que os satisfaz e obviamente não saíram por aí escrevendo artigos que defendam o Software Proprietário. Desculpe se não fui claro, irei colocar de outra maneira: os defensores e colaboradores do Software Livre por outro lado são aqueles que estão interessados no processo, no mecanismo, no que está por traz do software final, querem fazer uso dessa “abertura” para criar ou sugerir artefatos ainda melhores. Dessa maneira ficam empolgadas e escrevem sim artigos, formam e debatem opiniões e ideias que valorizam o Software Livre. Admito que dessa maneira minha opinião soa simplista, mas acredito que esse é o espírito. Eu, como agente dos processos e mecanismos dos softwares, e também usuário e cientista da computação em formação), faço uso e admiro várias iniciativas de Software Livre. Também uso diversos aplicativos e soluções livres que sem dúvidas são melhores que as concorrentes “fechadas”. E por isso tudo, eu e também o outro autor do artigo, fomos capazes de criar uma visão crítica estruturada em nossas impressões e experiências nos últimos três anos.
    7) Concordo integralmente.
    Por fim gostaria de cobrir outros pontos, criticas e sugestões que não citei acima: organizar e disponibilizar de maneira mais objetiva as faltas e notas das tarefas; permitir a visualização de tarefas antigas; o sistema e a ideia do chat em si é ótima e bastante útil; cumprir e organizar o que foi dito (exemplo: foram citadas duas tarefas extras: “uma de 25/10 a 8/11 e outra de 8/11 a 15/11” – até hoje a segunda está para ser disponibilizada e nos aproximamos do fim da disciplina, 21 de novembro); planejamento, clareza e clareza e mais clareza no que está sendo pedido (palestra, artigo, apresentação, presencial, online, fórum, chat ou blog? Envio por email, link, confirmação no moodle, cópia do texto, questionário? Todos, inclusive as monitoras ficaram perdidas entre tantos meios e possibilidades! Será realmente necessário fazer uso de tantas ferramentas e soluções?).
    Por enquanto é só. Desculpem-me quaisquer erros de português, concordância ou lógica.

    Respeitosamente,

    Artur Rodrigues

  2. ok, divulguei no moodle, todos estão convidados! Esse tipo de discussão não só reflete o que busquei durante todo o semestre como também vai ser muito útil para a nossa busca incessante por melhorias.
    Diferente das oficinas de inglês – e sim: conversei muito com a responsável, minha colega de linha de pesquisa na pós -, esta é uma disciplina de produção textual, a dinâmica é tão diferente que a responsável por essa oficina de ingles cuida de 2 mil alunos, enquanto nós cuidamos de 500 até agora e, depois de muita luta, conseguimos que, a partir do ano que vem, sejam duas turmas de 250. Deveria ser menos, mas não temos docentes suficientes.
    Para este tipo de disciplina o ideal são turmas de, no máximo, 30 alunos. Era assim e a metodologia foi usada com sucesso em turmas de diversos cursos da UFMG, mas essa é a primeira vez que a metodologia é usada em uma turma assim, tão grande e, confesso, a resultado está muito bom para uma primeira vez.
    O que mais me impressiona é que o tamanho da turma afetou, mais que qualquer outra coisa, a percepção de vocês da interação com os alunos e como um todo, como pode ser visto nos resultados da avaliação do curso na semana 15. Alguma sugestão sobre como melhorar isso?
    Ana

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  4. Ana,
    Li o seu post e o do Arthur até o final…
    Não sei se você acompanhou todos os meus comentários, mas durante todo o curso relutei, e reluto ainda, como a forma que a disciplina foi dada. Sou aluna de engenharia, mas amante da literatura, e imaginei que teria acesso a diversos textos. Infelizmente, não gostei do assunto software livre desde o início, e tive de conviver com ele o curso todo. Quase todos os textos disponibilizados tratavam de software livre – e somente sob uma ótica positiva.
    O que mais me incomodou foi ter cursado “Oficina de Software Livre e Pequenas Dicas de Português”. Eu sinceramente esperava uma “Oficina de Língua Portuguesa: Leitura e Produção de Textos”, a qual nominalmente me matriculei. Se o intuito da disciplina era esse, porque não constou na ementa? Me chateou bastante ter de cursar essa disciplina – e eu tinha tantas espectativas!
    Como sugestão, variar mais os temas tratados. Por mais que você goste de software livre, não seria possível restringí-lo a apenas parte do curso? Faça uma divisão temática do curso, para cada 4 semanas, por exemplo. Assim você conseguiria tratar de forma variada e aprofundada mais assuntos.
    Obrigada pela atenção e desculpe se pareceu ofensivo de alguma forma, não é a minha intenção.
    Mariana Viegas

  5. Parece que vou ter que desenhar e mandar em anexo para ser entendido. Não é resistência ao curso online que a maioria reclamou, mas simplesmente do curso ter sido sobre vocês sabem o que. O tema:”produção de texto” foi somente um figurante, ou melhor: Figura de cenário, tipo uma pedra ou uma árvore. Canseira. Deu para entender agora? Falem sobre isso, parem de falar que os alunos que não gostaram do curso são um bando de gente anacrônica e vocês os Santos Dumont da era digital. Falem sobre o verdadeiro fato de não termos gostado supracitado acima. Caso queira me responder, seja lá você quem for, me mande e-mail, porque não perderei meu tempo aqui mais.