Casey Haynes: estudo semiótico de um caso de bullying registrado em vídeo

O registro audiovisual de um conflito entre estudantes australianos ficou conhecido mundialmente por meio da intensa difusão em sites de compartilhamento de vídeos. As imagens apresentam a agressão a um estudante que reage subitamente, e com uma força inesperada derruba o agressor no chão. O vídeo de Casey Heynes (http://www.youtube.com/watch?v=eyVilspkzBg) ficou conhecido popularmente como Zangief Kid, em referência a um personagem de videogame que utilizava um golpe semelhante ao que foi aplicado no conflito. As imagens impressionaram o mundo e levantaram uma importante discussão nas escolas, alertando pais e professores sobre um tipo de violência que se tornou conhecida como bullying. Esta é caracterizada por agressão moral e/ou física praticada por determinados sujeitos ou por grupos sociais com o objetivo de intimidar, insultar ou humilhar suas vítimas. Neste trabalho, analisa-se, sob a perspectiva da teoria semiótica de linha francesa, o acontecimento como sequência de ações e reações que constroem diferentes sentidos no processo enunciativo. A partir da investigação dos planos do conteúdo e da expressão, é privilegiado: o percurso gerativo de sentido, especialmente uma análise no nível narrativo. Outro aspecto que apontamos é o percurso gerativo da paixão, especificamente a moralização, que, segundo a semiótica, é produzido pela incidência de valores do coletivo/social sobre o individual. Dessa forma, confronta-se o sujeito agressor e sujeito agredido na relação homem-mundo. Entre um e outro, entre os estados inicial e final, vislumbra-se intervalos tensivos em que pode-se tangenciar, pelas categorias aspectuais, as gradações que particularizam o bullying no vídeo citado.

Autores: Isabel Cristina Vieira Coimbra Diniz
Daniervelin Renata Marques Pereira
Paulo Henrique Souto Maior

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19 thoughts on “Casey Haynes: estudo semiótico de um caso de bullying registrado em vídeo

  1. Olá pessoal!
    Achei interessante o ponto de vista de vocês sobre o assunto. Esse também foi o tema abordado pelo meu grupo, mas o que importa é o ponto de vista diferenciado sobre assunto. Isso torna o trabalho ainda mais rico.
    Abraço,
    Ester.

  2. Olá a todos! Esse vídeo ficou conhecidíssimo e gostei bastante de encontrar uma análise sobre ele nesse evento! O artigo ressaltou para mim a importância da discussão sobre o tema bullying e gostaria de destacar um aspecto que me chamou a atenção e para o qual ainda não tinha “parado para pensar”: “Nesse caso, não podemos pensar que há apenas dois envolvidos no conflito: o autor e o alvo. Os especialistas alertam para esse terceiro personagem responsável pela continuidade do conflito” (o espectador).
    Abraço da Ana Bovo

  3. Parabéns au grupo! Infelizmente o tema bullying está se revelando uma fonte inesgotável de problematização em diversas áreas do saber: não é só um problema dos psicólogos. É também problema dos juristas, dos sociológos e dos semioticistas (e etc) pois, pelo que vimos nas contribuições em todos os artigos postados, a semiótica nos dá ferramentas replicáveis de análise suficientes para discutir em nível de igualdade com aqueles que vêm refletindo sobre o assunto.
    Bj
    Marisa

  4. Obrigada pelos comentários, pessoal!
    Ana Bovo, muito interessante mesmo. É a consciência desse “outro” que configura o evento como bullying e desencadeia o percurso passional. É uma boa ideia fazer um estudo direcionado para esse expectador no caso do bullying.

    Marisa, estar sendo pesquisado por vários campos do conhecimento é a maior vantagem que vejo nesse caso, porque mostra que as pessoas já estão conscientes do problema e tentando encontrar “saídas”. A semiótica francesa é mesmo um excelente instrumento de análise, ajuda que leiamos os textos com menos ingenuidade, revelando os sentidos. Espero que se junte ao grupo dos analistas!

    Abrs,
    Daniervelin

  5. Caros colegas, parabéns pelo trabalho. Gostaria de ressaltar que a intertextualidade presente no texto do Casey Heynes ou “Zangief Kid” é também interessante, pois, de modo geral, costumamos relacionar a intertextualidade a um conhecimento prévio, mas, muitas vezes, a relação entre textos só acontece em função de um dado relevante ou chamativo. Muitas pessoas que nunca haviam jogado Street fighter, só vieram a conhecer o Zangief por causa do garoto australiano. Nesse caso, o golpe já tinha um dono, porém, esse acontecimento nos mostra que nem sempre temos acesso primeiramente ao texto original. Isso pode nos ensinar que podemos seguir caminhos inversos para despertar nos jovens o interesse pelo que não é novo, mas que ainda inspira novidades.

  6. Gostaria muito de começar chamando a atenção para o ponto onde a teoria levou o grupo e que é uma das importantes contribuições deste evento para as reflexões sobre o bullying, na minha opinião: “S1 é, socialmente,
    axiologizado positivamente, como “herói”, por se vingar do seu agressor, embora no nível
    narrativo ele sucumba aos valores negativos do conflito.

    Ora, é exatamente esse o cerne da questão: a sociedade valoriza a insurreição da vítima como forma de vencer a agressão, mas não questiona a forma como isso acontece. A vítima que vitimiza seu agressor é realmente um herói? Ou é alguém que “desce ao nível” do agressor, submetendo-se a seu quadro de valores?
    O percurso analítico que o grupo apresenta mostra muito bem como o texto e o contexto desse texto considerados na análise são responsáveis pela criação de efeitos de sentido que vão além da obviedade. Gostei muito do trabalho, mostra muitas das possibilidades de análise, muito bem embasadas e sem perder o foco na questão central que é o tema deste evento! Parabéns!

  7. Elisângela,

    Consideramos que para o foco da análise, sendo o conteúdo do vídeo em questão a intertextualidade com o personagem do jogo de videogame não traria muita produtividade. O nome foi atribuído depois do conflito ser popularizado na internet, pelas semelhanças físicas do rapaz e do golpe estilo balão que ele deu no outro. Esse acontecimento seria realmente muito interessante em uma outra análise porque o bullying físico entra na internet com valores psicológicos, pelo apelido. Embora não me pareça haver negatividade no apelido.

    Foi interessante você chamar atenção a esse fato.

    Abç !!

  8. Valeu mesmo Ana,

    Esse trabalho foi realmente um desafio para todos nós, até pela redação coletiva, as discussões que tivemos sobre o sentido do vídeo e o que iríamos explorar no artigo provocaram uma melhor compreensão sobre o acontecimento.

    A problematização da foria foi mesmo bacana, uma daquelas surpresas que surgem durante a análise.

    o/

  9. Oi Elizangela,
    Obrigada por sua contribuição!
    A respeito da Intertextualidade e citação do termo “Zangief Kid” quero salientar que a associação com o personagem do jogo foi numa perspectiva de identificação descrição do acontecimento.
    Por outro lado a tematica fica como uma boa sugestao para uma outra abordagem desse tema ou trabalho.
    Até!
    Isabel

  10. Oi Ana e Colegas,
    Para mim a analise deste texto e elaboração deste trabalho, sob a semiotica francesa, foi também um grande desafio e enorme aprendizado. Um aprendizado na aplicação da teoria e tb pessoal.

    No campo pessoal confesso que deprincipio achei justo e louvável a atitude de Heynes em revidar. Afinal ele era a vitima, “coitado”! Mas a análise do discurso me mostrou o outro lado da moeda: a retroalimentação da violencia.

    Nesses termos, como citamos em nosso trabalho, o espectador tb faz parte do conflito (que é uma das caracteristicas do bullying), e nesse sentido fiquei pensando que o cyberespectador alimenta exponencialmente essa questão.Qdo assistimos esses videos na internet pelo simples fato de “ver” e ainda divulgamos seja parabenizando qqr tipo de violencia, creio que passamos a fazer parte dos milhares espectadores que assinam o contrato de violencia…

    Ainda refletindo e ruminando..
    bj
    Bel

  11. Oi, Pessoal,
    Interessante perceber como a semiótica pode nos proporcionar diferentes maneiras de olhar e analisar o mesmo caso independentemente se texto verbal, não verbal ou sincrético. Outro grupo também analisou este mesmo fato e com uma outra perspectiva, já que utilizaram um texto da Revista Nova Escola que discute o tema.
    Concordo com os pontos abordados pelo grupo e enfatizados pelo(a)s colegas nos comentários. O bullying é um problema a ser discutido e analisado por profissionais de várias áreas do conhecimento e que levem em consideração os outros que, de algum modo, também estão envolvidos. Bullying é um problema social. A atitude de reagir a ele com violência não pode ser vista como heroísmo, mas como um outro problema que advém dele e que também deve ser resolvido.
    Não dá mais de restringir o bullying a quem pratica e a quem sofre, pois há, além destes, os que incentivam a continuação, os que incentivam a reação, muitas vezes violenta como nesse caso, os que veem e fingem-se de cegos e surdos principalmente por medo, os que apenas passam o problema adiante pensando que o estão resolvendo, como foi o caso que meu grupo analisou: “Aconteceu comigo: bullying”.
    Parabéns ao grupo, texto bem elaborado e com um ótimo embasamento teórico da semiótica francesa. A parte em que descrevem as ações praticadas pelo agredido (S1) e pelo agressor (S2) nos leva a projetar sequencialmente todo o vídeo.
    Abrçs.
    Agleice

  12. Olá a todos! Ótimo trabalho! Texto realmente avançado na área. Creio que somente a reflexão sobre os contextos em que estão inseridos os sujeitos do bullying poderão contribuir para o fim desse mal. Concordo plenamente com o grupo quando diz que Casey, ao agir com violência, aceita o contrato do agressor e desce ao seu nível. Mas mesmo concordando com isso, me pergunto: como uma criança poderia se livrar do problema em um ambiente que parece só haver plateia e nenhum adulto para ajudá-lo? Difícil né!? E a pessoa que estava filmando certamente fazia parte da torcida do mal. Deve, no mínimo, combinado com a agressor que gravaria a cena. Só que o agressor se saiu mal (ou não, pela perspectiva de que teve seu contrato de violência aceito) e o agredido se tornou “herói” nessa sociedade que aplaude a violência. Infelizmente! O evento nos ajuda a refletir sobre o assunto a fim de que encontremos soluções. Eu também estou em busca de soluções. Até pq, sou educador.

  13. Dani, Bel e Paulo! Parabéns pelo trabalho! Muito bom mesmo! Não era de esperar diferente deste trio!

    Gostei muito da parte que aborda sobre o bullyng: quando surgiu, quando se considera um ato como bullyng etc.

    A análise de vocês foi espetacular! E me chamou a atenção o que Ana Bovo e Ana Matte já citaram: a presença de um terceiro personagem que dá continuidado ao conflito, mesmo de forma passiva. E será realmente um herói a vítima que vitimiza o agressor?

    Bjos a parabéns!

  14. Oi, Letícia, pois é, isso está dando “pano pra manga” na comunicação vizinha, http://www.textolivre.pro.br/blog/?p=2703. 😀 Como analista, eu diria que o herói é aquele que é dito como tal pelo texto e, nesse sentido, a mídia, como representante dos valores da sociedade, elege a vingança, a força, como traços do vencedor. Como pesquisadora interessada em Educação, acredito que não é herói de forma alguma… aliás, o que falta aí é um herói, aquele professor ou diretor que chega e dialoga com os alunos, não é?
    Abrs,
    Dani

  15. É mesmo, Dani, eu estava lendo a resposta do Carlos e perguntando a mim mesma: como assim, nenhum adulto? crianças sozinhas? E os pais? e os professores? E os funcionários das escolas e outros ambientes que elas frequentam. Daí você respondeu: sim, o herói será quem vai buscar uma saída sem fechar o contrato daquele que, para nós, é um anti-destinador pois promove o bullying, contra o que nos posicionamos aqui.

  16. Olá Isabel,Daniervelin, Paulo e demais colegas!

    Como professora do ensino fundamental observo no meu cotidiano quase que diariamente casos de violência e agressividade entre os alunos. E não ocasionalmente, o bullying acontece. Fico ali tentando fazer com que alguns atores olhem por outro ângulo seu entorno e não se deixem levar pelas agressões. Difícil ser mediadora de conflitos. Sei ainda que fora dos muros da escola não há sequer este papel. O herói dos adolescentes é o vingador, o forte, o violento.
    Abraço e parabéns pelo ótimo texto!

  17. OI gente,obrigada a todos pelas contribuições!

    POis é, interessante ou triste como as coisas hoje em dia são valorizadas ou desvalorizadas. Parece que a protagonista da historia se tornou a “violencia”.
    Onde estão todos! A ausencia de um “mediador” provocou o surgimento do “herói”.Mas um heroi que usou da violência para ocupar esse lugar… ..Mas e se a reação de Haynes nao fosse pela pela violência e se ele nao tivesse “assinado” o contrato de violência?.. provavelmente o acontecimento nao teria o mesmo alcance, provavelmente ele continuaria como o “covarde” ou “bobo da corte” e nós nem estaríamos aqui discutindo sobre ocaso..
    E o bullying permanece… acontecendo dia-a-dia tao perto e tao longe dos nossos olhos..
    Como educadores o que podemos fazer, não é?
    bj
    bel

  18. Parabéns Bel, Daniervelin e Paulo! Excelente observar a relacao que voces fazem do caso Casey Haynes com a Semiótica Francesa e a inclusao de elementos da Semiotica das Paixoes também foi feita de forma fantástica!
    Bjs,
    Carol