ENCERRAMENTO: A respeito da construção semiótica do sentido do bullying e do ciberbullying

Esta proposta de encerramento do evento chama para uma discussão única todos os autores e interessados no tema. Antes que trazer conclusões, trazemos pontos para reflexão. O termo ciberbullying tem sido usado para distinguir o bullying realizado diretamente entre as pessoas do bullying mediado por computadores em rede. Com base na teoria semiótica, vamos discutir a relação entre os dois termos tendo em vista lançar algumas luzes sobre essa diferenciação e possíveis consequências práticas do uso dos dois termos em relação à construção do sujeito na sociedade atual. Trata-se de refletir, portanto: até que ponto o bullying e o ciberbullying são problemas diferentes?
Autores: Ana Cristina Fricke Matte

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13 thoughts on “ENCERRAMENTO: A respeito da construção semiótica do sentido do bullying e do ciberbullying

  1. Oi, Ana, foi angustiante ler em seu texto que “o agressor é duplamente vencedor: ele vence porque convence a vítima de que deveria defender-se, e vence também porque, nos casos bem sucedidos, a vítima é incapaz de defender-se”. A sensação de impotência diante do bullying é uma constante. Por isso é que tanto se discute, mas é difícil chegar a uma solução para o problema. É como se fôssemos sempre sujeitos virtualizados diante dessa situação.

  2. É difícil, Elisângela, mas esse grau de compreensão do problema nos faz perceber onde existe uma saída real. Afinal, só assim compreendemos que, quando o bulizado se revolta e parte para a agressão, ele perde. E, talvez pior ainda, o bullying é fortalecido. No lugar de incentivar as pessoas a reações coniventes com a violência, a saída está em: a) buscar soluções pelo diálogo, e como o bullying envolve questões de poder, é necessário que pessoas ou instituições com poder interfiram no processo; b) tratar o bulizador como uma também vítima, como alguém que, afinal de contas, também perdeu ao fechar esse contrato, mesmo que pareça que ele é quem o propôs. Ele é vítima de duas formas:
    – vítima porque fechou um contrato de violência e corre o risco, a qualquer momento, de levar o troco, além de dever preservar uma imagem de anti-sujeito o tempo todo, condição si ne qua non de sua sobrevivência
    – vítima porque os órgãos que deveriam ser competentes para lidar com isso não o são, e só conseguem resolver o seu problema jogando o bulizador para outra instituição, tão (in)competente quanto a primeira. Esse deslocamento tem uma consequencia muito provável: aumentar a sensação de exclusão que ele, por meio do bullying, vai tentar passar adiante.

    Outra questão importante: o bullying existe porque existe uma crença no poder do outro. Se o sujeito afetado reage com indiferença, ele se torna uma péssima vítima (não vítima, na verdade) e logo será trocado por um “exemplar” melhor. Isso, sim, pode ser ensinado às crianças.
    Isso me fez lembrar os estudos sobre a infância, no mestrado, que indicavam o quanto os adultos subestimam a capacidade de compreensão das coisas pelas crianças.

  3. Bem, Ana, esse teu modo de provocação é bem eficaz, não? E difícil não “aderir” a ele. Então, vamos lá.
    É uma chuva de ideias que agora já virou tempestade de ideias e vou agarrar apenas uma gotinha do assunto.
    Teus comentários me remeteram à questão do suporte. Em princípio, temos um assunto que tanto pode se desenvolver no meio verbal, como no meio escrito, como no meio sincrético (o bullying). Mas será que a mudança do meio não afeta consideravelmente o processo da comunicação?
    Fiquei pensando rapidamente nos modos sociais de leitura. Lembro-me que no livro Historia da Leitura (acho que era esse o título), o argentino Alberto Manguel comentava a transição em um modo social de leitura. Parece-me que até o sec. V d.C era comum e obrigatório que todos lessem cartas pessoais em voz alta. Todos em volta conheciam o conteúdo. A leitura silenciosa era uma ofensa aos presentes. Mais adiante ele mostra uma velhinha lendo na cama etc etc.
    A mudança no suporte, para livros menores que os incunábulos gigantes permitiu essa forma social de ler.Mas o conteúdo passou a ser compartilhado por uma questão de decisão individual e não mais compulsória, como era antes.
    Admiro essa problematização que você faz, até que pontos os suportes do bullying os diferenciam?
    Então, não vou me estender muito. A pedrinha que eu jogo na conversa tem esse rumo, portanto. Até que ponto a mudança no suporte altera um “mesmo” conteúdo do ponto de vista da recepção e da propagação da mensagem?
    Sendo o bullying e o ciberbullying ambos reprováveis, em que diferem diante de uma sentença jurídica, por exemplo?
    Um operador do direito pode criminalizá-los do mesmo modo? Se podem, por que não o fazem?
    Uma difamação, por exemplo, em carta anônima, é menos nefasta que uma carta anônima disponível na internet?
    Bem, são perguntas.
    Quero manifestar minha alegria em ter tido a chance de conviver neste espaço com todos. E garanto que minha alegria não difere daquelas que sinto em experiências presenciais.
    É uma alegria muito real que ficará em minha memória.
    Em Concerto para corpo e alma Rubem Alves: “Aquilo que a memória amou fica eterno”.
    Beijo a todos
    Marisa

  4. Marisa,
    seus comentários são apropriados, sim. Do ponto de vista da linguagem, muda. O conteúdo não é igual em todos os suportes (como você diz, prefiro dizer tecnologias). Eu não escrevo uma tese na areia. Se um juiz assinar uma sentença usando lápis, o efeito é completamente diferente. Mas o bullying não é um gênero de escrita, é um comportamento social. E não tenho a menor dúvida: se alguém, anonimamente, colar uma foto de uma colega nua no corredor da escola em que ambos estudam, o efeito será drático e possivelmente imediatamente muito pior do que a mesma foto postada aninimamente na internet. No te que usei a palavra “possivelmente”; o que me incomoda nessa história toda é as pessoas fazerem da internet um bode expiatório para problemas que existem há séculos na nossa sociedade.

  5. Olá Ana, deixei para ler seu texto hoje, após passar por todos os outros. Gostei bastante da provocação e percebi mais claramente até mesmo suas considerações sobre o nosso trabalho, especialmente quanto poderamos se o cyberbullying não seria mais “cruel” que o bullying. Entendo que os autores que optam por essa tese levam em conta as características do meio virtual, que permite ao agressor estar “presente” mesmo quando não pode estar “presente”. Entretanto, concordo que é questionável e que depende do percurso de cada relação. Mas ouso dizer que, com a importância das redes sociais especialmente para os jovens, essas agressões pelo meio virtual tendem a tomar proporções imensas em suas vidas! O que é importante deixar claro, no entanto, é que isso não é um fenômeno típico da internet, mas sim das relações sociais. Abraço da Ana Bovo

  6. Ana Bovo,
    A internet mudou muita coisa na nossa sociedade, as tecnologias tem mesmo esse poder. É muito diferente fazer uma pesquisa sobre comportamento hoje do que era há 50 anos, quando você teria necessariamente que entrar em contato direto com as pessoas para obter dados, por exemplo: hoje você consulta banco de dados e pode, se quiser ser rigoroso na pesquisa, ignorar completamente a identidade dos informantes, usando somente as informações pertinentes. A invenção da imprensa, da fotografia, da luz elétrica, cada uma delas mudou o comportamento das pessoas e isso é inegável.
    Mas me chama muito a atenção essa abordagem tão comum e realmente ingênua de que a tecnologia é “do mal”. Ora, tudo que não conhecemos vira uma entidade super poderosa, até que comecemos a compreender.
    Acho mais difícil entender as sutilezas da natureza humana (se é que existe “uma” natureza humana) do que mexer com mudanças causadas pela tecnologia. O ponto que estou levantando e acho importante, não só para o estudo do bullying, mas para qualquer evento na internet, é essa ilusão de que virtual compreende algo como “pureza” ou “liberdade” ou qualquer coisa. O meio online é um meio onde interagem pessoas: é tão impuro, imperfeito, perigoso mesmo quanto qualquer outro.

  7. É da soma de provocações como a sua, que depois de mastigadas,reformuladas e digeridas, constroem um corpo capaz de trincar determinados “status”.
    Como você disse, e eu coloco em outras palavras, ataques desse tipo só cumprem a sua proposta se o destinatário assim o permitir.
    Trazer esse assunto para a argumentação semiótica lança idéias alternativas que podem permitir ao sujeito, ao se tornar consciente do problema, construir recursos que possam protegê-lo dos “ataques”.
    A Marisa também leu uma faceta interessante do seu texto : a aplicação jurídica da discussão. Sabemos que no dia a dia o saber jurídico precisa atualizar os seus alfarrábios para neles incluir os novos lançamentos de “produtos” surgidos na contemporaneidade.Um movimento na água pode produzir uma onda.

    Alguém disse um dia que um bom texto sempre deixa os seus leitores impregnados dele.
    Parabéns pela discussão proposta,

    Thaís

  8. Ana,

    Excelente provocação! Você me fez pensar o tempo todo: Quem são os atores dessa tragédia? Quem maltrata?Quem sofre? Quem assiste? Certamente a tríade violência- frequência- intencionalidade constrói o cenário e não importa se agressão é presencial ou virtual. É difícil distinguir o digital do real e o real do digital. O bullying sempre existiu, porém hoje tem nome, sobrenome, descrição e reconhecimento psicossocial.

    Sobre os eventos na internet, acredito que seu pensamento encontra eco no que afirma Snyder (2009, p. 32-33) “Um grau de cautela e perspectiva crítica sobre as tecnologias digitais é conveniente e apropriado. Sem dúvida, as tecnologias digitais tais como a Internet e a produção de caracteres permitiram certos comportamentos sociais indesejáveis e deram a algumas pessoas o anonimato que elas precisavam para ludibriar o suscetível.” Além disso, mesma autora afirma que podemos ser vítimas de coação, através do Website ou em uma carta anônima e conclui “ A história sugere que um senso de preocupação e pânico moral é injustificado uma vez que as velhas tecnologias também tem sido usadas para vincular as crianças com conteúdo adulto inapropriado e publicidade agressiva. Riscos podem ser exagerados com a finalidade de se ter uma história, mas produzir pânico moral não informa ou conduz ao debate sensato público ou à orientação política.”

    Abraço,

    Mônica

    SNYDER, I. Ame-os ou deixe-os: navegando no panorama de letramentos em tempos digitais. In: ARAÚJO, J.C; DIEB, M. (Org.). Letramentos na web: gêneros, interação e ensino. Fortaleza: Edições UFC. 2009, p. 23-46.

  9. Muito interessante…

    Interessante o seu texto Ana e os comentários aqui depositados.Também passei por quase todos os textos publicados e percebo seu artigo com uma espécie de análise e síntese dos textos que produzimos. Quero comentar dois pontos:

    1. Quando você afirma que não existe cyberbullying, num primeiro momento podemos até estranhar, mas depois ao continuar a leitura e a rever os conceitos de bullying que nós mesmos pesquisamos tenho que concordar: Não existe mesmo o cyberbullying, existe o bullyng com suas várias estratégias e artimanhas. E claro, o bullying só existe porque existe o ser agressor e o ser agredido numa situação de repetição sistemática na presença de espectadores. Nesse contexto o estar em conjunção ou disjunção com o valor violência é o que vai desenrolar toda a trama.

    Fiquei pensando que o bullyinizador também existe porque existe o bullyinizado. O contrato é cognitivo e ao ser “colocado na mesa” o destinador manipula por provocação o destinatário a partir do quadro de valor (violência).

    O segundo ponto polêmico é a posição de que o opressor é duplamente vencedor. Se ha a defesa ou o contra-ataque o contrato de violência foi assinado pelo destinatário- o bullyinizador vence. Se ha a passividade como resultado da aceitação da crença do merecimento de ser bullyinizado também o bullynizador vence.

    As análises dos textos aqui no ULEAD do bullying sob o olhar e análise da semiótica francesa nos apontam para um fenômeno que sempre existiu na sociedade e em todas as culturas. Parece algo implícito no ser-humano exemplificado pela prática de competição e de “n” disputas sobre inúmeros motivos ou desejos de conjunção ou disjunção em relação a determinados objetos-valores.

    No caso do bullying, pode parecer insensibilidade para com o ser agredido seja em qualquer instância ou espaço (na escola, em comunidades cyberespacias, no trabalho, no clube etc), mas me parece depois destas análises e debates que a materialidade do bullying está associada diretamente a uma série de passos: 1º.- Com a crença de que o sujeito agredido concorda com o motivo da agressão, 2º. – Que o sujeito agredido aceite a situação seja pela retaliação ou pela passividade.

    Por outro lado se o sujeito agredido não é manipulado ou seduzido pelo contrato de violência o percurso é interrompido, podendo virar inclusive uma outra relação no plano de conteúdo e no plano de expressão.

    Acredito que essa seja, a meu ver, a grande contribuição de nossas análises e discussões à luz da semiótica francesa.

    Resta-nos como educadores, pais, filhos, cidadãos imersos nessa cultura permeável a todo tipo de “coisas” a decisão do que faremos com essas constatações.
    Agiremos como expectadores? Como agiremos?

    Obrigada Ana eatodos os colegas pela avntur de aprender, analisar, refletir e semiotizar…
    Isabel Coimbra

  10. Ana e Colegas,
    Entendo que se o bulizado reagir com agressividade, só aumentará a violência, pois estará reproduzindo o comportamento do bulizador. Da mesma forma, entendo que a ocorrência do bullying no espaço virtual não lhe tira o rótulo de real, já que as consequências serão sofridas por pessoas na realidade. Dessa forma, antes de se pensar ou incentivar a resolução do bullying por meio da violência, é necessário dizer não à manipulação por provocação e sim ao valor da diferença. Destinador e destinatário não precisam agir igualmente.
    Com relação ao contrato, ele só se concretizará se o bulizado a ele aderir, não havendo reação, não lhe dando importância, rompe-se o contrato antes que ele se concretize como almejado pelo bulizador. É isso que tem que ser propagado, se eu não quero o papel de bulizado, não devo, portanto, representá-lo. Todavia, para que eu não o represente, para que eu rompa o contrato, será necessário o apoio, a ação de pessoas e esferas competentes que o resolva sem transferi-lo apenas a outros lugares.
    Vejo isso mais possível fora do ambiente virtual, uma vez que na internet o bulizado pouco dispõe de meios para esse rompimento e ainda passa a ter o incentivo de curiosos que pouco pensam nas consequências reais do ato que tem como “acobertador”, muitas vezes, o anonimato.
    A internet é utilizada como uma nova estratégia de bullying, mas deve principalmente ser usada como meio de conscientização, mobilização e combate a ele.

    Bjs.
    Agleice

  11. Refletindo, Ana:

    O Bullying e o Ciberbullying não me parecem problemas diferentes – o problema, por assim dizer, é único; os espaços nos quais acontece é que são múltiplos. Eu concordo quando diz que os problemas são sociais, não são da internet, “sendo o ciberespaço apenas mais um ambiente” de expressão social.

    A provocação é de mestra! Contrato fechado em parte: A meu ver, não se trata de superestimar as circunstâncias de um mesmo percurso passional pela estratégia escolhida, mas de reconhecer-lhe um componente perverso, quiça, mórbido, o qual implica não somente na manutenção prazerosa da manipulação por provocação, mas também em sujeitar a vítima com maior intensidade. Se crime fosse, estaria agravado pelo requinte da crueldade.

    Sim, a internet não é culpada dos problemas, mas a internet agrava os problemas, inclusive, a possibilidade de anonimato ou de falsa imagem é a característica deste espaço que mais dificulta a atuação dos órgãos de poder, considerando o que você pontuou muito bem para a Elisângela. E parece-me que as pessoas que se relacionam exclusivamente no meio virtual são as que mais se utilizam deste artifício – falsa imagem. Assim, o exemplo dado me deixou pensando se haveriam valores a serem defendidos por uma postura pessoal na circunstância hipotética.

    O ponto relevante da sua proposta de reflexão e que gostaria de ressaltar é o da relação em níveis entre o eu-individual e o eu-social porque veio de encontro à minha percepção de que tanto o discurso é analisável segundo os níveis propostos pela Semiótica Greimasiana quanto a interação em ambiente digital organiza-se em níveis.

    A interdisciplinaridade entre esses níveis formou um hipertexto para mim, com o perdão do trocadilho.

    Parabéns! Obrigada pela oportunidade de participar.

    Abraços,

    Andréa Marques.

  12. Ana, seu artigo é muito esclarecedor. Realmente, se pensarmos bem a respeito da palavra ciberbullying, veremos que ela pode representar um bullying que acontece exlcusivamente nos espaço virtual. Entrar no facebook me fez entender um pouco isso; ali são feitas exclusões muito peculiares, como não colocar o nome de um “amigo” em uma lista de recados, ou convidar para um evento, ou não comentar, não chamar para o chat… Engraçado que, pessoalmente, continuam conversando…
    Segundo minha filha de 10 anos, a “graça” do orkut é excluir! Isso me assustou.
    Sem dúvida, no espaço virtual as relações se configuram de modo diferente do real e a semiótica nos ajuda a perceber isso.
    Parabéns pelo evento!
    Abç
    Ana Maria

  13. Excelentes reflexões colegas. Também concordo que o problema não é da rede virtual, é social e sempre existiu. É claro que agora existem mais possibilidades de se propagar o mal. Mas essas possibilidades também devem ser usadas para o bem. Como? Este espaço pode contribuir para respostas como esta. Se o agressor consegue usar a rede a seu favor, pq nós não conseguiríamos o contrário?